segunda-feira, 21 de março de 2011

ETERNO CHORO: ONTEM, HOJE E AMANHÃ.


Em 1902, quando a indústria do disco surgiu no Brasil, o choro já contabilizava quase 40 anos de história. Não foram poucas as transformações pelas quais o gênero - parte básica do DNA da cultura musical brasileira - passou desde 1867 (ano de lançamento de “Flor amorosa”, composição de Joaquim Calado e Catulo da Paixão Cearense apontada frequentemente como marco zero do choro).

Tão notável quanto a permanência e a influência do estilo em nossa música é a série de dogmas que envolvem a composição e a execução do choro.

Transformações à parte, o que não falta é gente, de um lado, querendo manter a tradição do choro intocada; e, do outro, novos nomes que partem do choro para outras paragens musicais, aliando o estilo a outras influências e referências.

Veteranos que seguem atuando (Joel Nascimento, Altamiro Carrilho, Déo Rian e grupos como Época de Ouro e Galo Preto), seguindo a estrita cartilha determinada ainda na primeira metade do século 20, dividem espaço com músicos de gerações posteriores, que trazem novas abordagens ao estilo. Hoje em dia vale tocar Beatles em clima de choro (como Henrique Cazes fez), incorporar novas influências e inovar na execução instrumental (caso do bandolinista Hamilton de Holanda) e usar o gênero como plataforma de miscelâneas mil (como o precocemente desfeito grupo Tira Poeira).

O fato é que cada uma das duas vertentes - os “fundamentalistas” e os “renovadores” - tentam puxar a brasa para suas respectivas sardinhas. Mas será que é assim mesmo, tão preto no branco? Em conversa com chorões (e outros nem tanto) de várias vertentes, das mais ortodoxas a aquelas abertas a novas experiências, fica claro que ninguém quer ser facilmente rotulado num ou noutro grupo.

O exemplo de Luciana Rabello é emblemático. Cavaquinista com 30 anos de carreira, discípula do mestre Jonas do Cavaquinho e criadora da gravadora Acari Records, ela é vista por muitos como a personificação da ortodoxia no choro.

Imagem com a qual a própria Luciana não concorda. “Não há nada de tradicionalista na música que faço. Na Acari há uma preocupação de lançar registros históricos do choro, mas também mostramos a produção contemporânea”, conta a polivalente artista.

“Além do mais, essa divisão é simplista demais. Nos anos 50, Radamés Gnatalli tocava choro com guitarra elétrica, bateria e contrabaixo mas não tinha pretensão de ser ‘moderno’”, prossegue.

Entretanto, a própria Luciana esclarece alguns pontos nesse qüiproquó estético. Ela diz: “Se há alguma verdadeira modernidade no choro produzido hoje, isso só vai se constatar daqui a uns 40 anos. Mais ou menos a cada 20 anos surge uma nova geração de músicos de choro.

O que eu vejo hoje é uma série de artistas talentosos, mas confusos. Trazer novos ritmos para o choro é um engano. O (clarinetista) Nailor Proveta costuma dizer para seus alunos: ‘Quando vocês estiverem tocando, de cabeça, 200 choros clássicos, aí sim vocês podem pensar em improvisar’. E eu concordo com ele. Não existe futuro sem passado”.

No front dos veteranos legítimos, o fervor fundamentalista abrandou-se. Do alto de seus 69 anos de vida (e mais de 50 de carreira), o bandolinista Joel Nascimento já viu muita água passar debaixo da ponte do choro. E diz: “Os músicos de choro já foram muito radicais em relação à forma ‘certa’ de tocar.

Antigamente não se admitia, por exemplo, violino no choro. Ou que um músico de choro tocasse jazz. Mas isso vem mudando. Nos anos 70, quando toquei com a Camerata Carioca, já tínhamos uma visão bem aberta”. Ainda assim, o instrumentista (que atualmente se apresenta acompanhado pelos jovens chorões do grupo paulista Quatro a Zero) é cauteloso ao se referir aos rumos contemporâneos do gênero.

“Confunde-se a evolução do choro, enquanto estilo musical, com a evolução do músico que toca choro”, analisa Joel. “Não há grandes evoluções no choro. Fazer arranjos novos para músicas velhas, isso todo mundo pode fazer. Mas o choro em si não se descaracteriza”.

Altamiro Carrilho tem uma visão parecida com a de Joel, mas um tanto mais crítica. “As músicas que esse pessoal novo anda tocando são complicadas demais.

Daqui a pouco, só músico de jazz vai poder tocar choro. Interpretar choro não é fazer pirueta. É um estilo que vem de black tie, que pede seriedade do músico. Não me considero um sujeito quadrado, mas acho que o choro é a mola mestra de tudo o que já se fez em música brasileira. Então não há necessidade de mudar nada. Como vai se modernizar o que já nasceu moderno?”, indaga o flautista.

Uma noção clara para muitos dos tradicionalistas é a de que o choro é uma “linguagem”. E quem se dispõe a “falar” essa língua precisa aprender primeiro o bê-a-bá, antes de sair recitando discursos complexos. “É preciso conhecer a tradição a fundo. A garotada tem o direito de experimentar, mas há de se respeitar a história”, pondera Mauricio Carrilho, parceiro de Luciana Rabello na Acari e integrante desde os anos 70 de grupos como Os Carioquinhas e a Camerata Carioca. Mauricio (sobrinho de Altamiro Carrilho) prossegue, contemporizando: “Há mais coisa além dessa divisão básica de tradição X modernidade.

Eu, particularmente, não me enquadro em nenhum dos campos. Existe muita gente séria fazendo, hoje, boa música sem apelar para fusões. O choro vive hoje uma época próspera”.
Henrique Cazes pode bem representar o paradigma do músico que trafegou de um extremo a outro no choro.

Tocou com gigantes como Radamés e Joel Nascimento, mas deu a cara a tapa ao reler Pixinguinha usando instrumentos eletrônicos (no projeto EletroPixinguinha) e ao recriar hits de Lennon & McCartney (com a série Beatles’n'Choro). Sobre o estado atual do choro, ele só vê motivos para comemorar.

“Vivemos um momento de liberdade. Os músicos estão à vontade, livre dos dogmas. Antes qualquer mudança era algo absurdo, um sacrilégio. O mais interessante é que ao lado dos novos nomes, a turma da velha guarda também voltou a tocar e gravar mais. Os formatos se multiplicaram”, diz Cazes.

A liberdade de que fala Henrique gerou frutos interessantes. Há toda uma geração de músicos jovens, formados a partir do último “renascimento” do choro (que Cazes situa cronologicamente no final dos anos 80) que usa o estilo como base para toda a sorte de fusões.

Um dos nomes mais citados neste campo é o de Hamilton de Holanda.

Bandolinista de 30 anos, que já tocou com Deus e o mundo (de Altamiro Carrilho ao roqueiro John Paul Jones, do grupo inglês Led Zeppelin), Hamilton reconhece que deve o que sabe ao choro. Mas que nem por isso se limita somente ao estilo.

“Acho que existem na verdade três caminhos no choro hoje em dia. Há o pessoal mais da tradição, há essa turma nova que gosto de chamar de ‘progressista’, e tem gente que fica no meio, que é o meu caso”, opina Hamilton.

“O que eu faço não é choro, tem outros elementos. O músico tem a obrigação de ser livre. Mas as mudanças precisam ser feitas com consciência. Sabendo-se que não dá para reinventar a roda, pode-se experimentar. A menos que surja um novo Pixinguinha ou um talento equivalente, não se pode falar em um ‘novo choro’”, completa o bandolinista. De ouvidos atentos à nova produção, o músico reconhece valor em experiências menos ortodoxas. “O Henrique (Cazes), por exemplo, tem toda a autoridade para fazer coisas novas dentro do choro”, diz.

O violonista Zé Paulo Becker é outro que caminha na linha entre passado e presente. De formação erudita, imerso no choro mas também cultor do samba e da MPB, o instrumentista trafega desenvolto entre estilos e épocas.

“Minha geração ouve mais jazz, samba, outras coisas além de choro. Então há essa influência saudável e natural. O mais importante é conhecer a tradição. A turma que chegou agora tem base e bom senso, toca de forma muito profissional”, fala Zé. Na hora do debate sobre os novos rumos do estilo, o violonista assume um discurso mais reverente. “Temos que definir o que é e o que não é evolução. Radamés e Garoto eram e ainda são modernos, em termos de harmonia, e nunca deixarão de ser”.

Em geral, quem emprega o choro como elemento a mais não tem pretensões de remoçar o gênero. A confluência de jazz, samba, MPB (e choro, claro) marca a música do grupo carioca Sardinha’s Club, antes conhecido como Pagode Jazz Sardinha’s Club. Eduardo Neves, flautista e saxofonista do grupo (que reúne uma série de feras, como Rodrigo Lessa e Marcos Esguleba), confirma: “Não buscamos renovar o choro.

Eu e Rodrigo aprendemos a tocar na escola do choro tradicional e é isso o que se ouve no Sardinha’s. Quem vai pela tradição costuma acertar mais do que o pessoal que quer inventar muito”.

Uma reflexão feita por um observador insuspeito da cena acrescenta nova luz ao debate. A princípio, o nome de Henrique Filho pode não dizer muito aos chorões. Mas mencione-se a alcunha profissional do músico e produtor - Reco do Bandolim - e a coisa muda. Reco é presidente do Clube do Choro de Brasília, instituição que preserva o gênero com espetáculos, debates, cursos e oficinas. E para ele não faz diferença se o choro a preservar é velho ou novo.

“Nos últimos anos, felizmente acabou essa noção de que ‘choro é só para chorão’ e ninguém mais. Essa divisão só atrapalhava a boa música. A fiscalização que os músicos mais velhos faziam sobre os novatos era muito negativa.

Choro é uma coisa viva, não é uma arte para ficar presa em uma cristaleira, pegando poeira”, discursa Reco, que está à frente do Clube há 12 anos.

Ele, que já pôs Pepeu Gomes e o Zimbo Trio para tocar choro em seu palco, resume sua visão: “Não há melhor nem pior nessa história, nem quem defende a tradição, nem os que pregam a novidade. Mas é claro que a evolução tem que partir de um profundo conhecimento sobre a obra das gerações anteriores”.

Um comentário:

Daniel Maffia disse...

cara, mt legal seu site, mas ele tá com parkinson??? A tela fica tremendo toda hora que abro nele!